KERUSSO (202) - TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA

 


APOSTILA DE ESTUDOS: TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Disciplina: Teologia Contemporânea (Séc. XX e XXI) Carga Horária: 60 horas/aula Foco: O colapso do Liberalismo, a Neo-Ortodoxia, as Teologias Políticas (Libertação), o Existencialismo e os desafios da Pós-Modernidade.


INTRODUÇÃO: O FIM DO OTIMISMO

Se a Teologia Histórica olha para o passado, a Teologia Contemporânea olha para o "agora". Esta matéria estuda como a igreja tentou responder às perguntas do homem moderno após as duas Guerras Mundiais. É um campo de batalha de ideias onde a fé encontra o existencialismo, a política, a ciência e a pós-modernidade.

O século XIX terminou com o Liberalismo Teológico prometendo que o homem, através da educação e da ciência, criaria o "Reino de Deus na Terra". Então veio a Primeira Guerra Mundial (1914). O gás mostarda e as trincheiras mataram o otimismo humano. Ficou claro que o homem educado também podia ser um monstro. A teologia precisava mudar. Deus não era apenas um "amigo bondoso"; Ele precisava ser um Juiz e Salvador.


UNIDADE 1: A NEO-ORTODOXIA (A Reação de Barth)

Diante do fracasso liberal, surge um gigante suíço que mudaria a teologia para sempre.

1.1. Karl Barth (O Pai da Teologia Moderna)

  • O Marco: A publicação do seu Comentário aos Romanos (1919) caiu como uma "bomba no parquinho dos teólogos".

  • Deus é o "Totalmente Outro": Barth atacou a ideia de que podemos encontrar Deus na natureza ou na emoção humana. Deus está no céu, nós na terra. Só O conhecemos se Ele se revelar (revelação vertical, de cima para baixo).

  • Cristocentrismo Radical: A única Palavra de Deus plena é Jesus Cristo. A Bíblia é o testemunho dessa Palavra.

1.2. Dietrich Bonhoeffer (Cristianismo sem Religião)

Pastor alemão morto pelos nazistas.

  • Graça Barata vs. Graça Preciosa: Atacou o cristianismo cultural que quer perdão sem arrependimento e coroa sem cruz.

  • Cristianismo Arreligioso: Previu um mundo onde a "religião" (ritos, roupagem) desapareceria, restando a fé pura em Jesus no meio da vida secular.


UNIDADE 2: TEOLOGIA EXISTENCIALISTA

Como falar de Deus para um homem moderno que só acredita na ciência?

2.1. Rudolf Bultmann (Desmitologização)

  • O Problema: O homem moderno que usa eletricidade não pode acreditar em milagres, anjos e demônios literais.

  • A Proposta: Precisamos "Desmitologizar" o Novo Testamento. Tirar a "casca" do mito (o sobrenatural antigo) para achar o "cerne" existencial (a mensagem de decisão e fé).

  • Crítica: Acabou esvaziando a historicidade da ressurreição.

2.2. Paul Tillich (O Método da Correlação)

  • Deus como "Base do Ser": Deus não é "um ser" (um velhinho no céu), mas a própria força da existência.

  • Método: A Cultura faz as perguntas (através da arte, filosofia, ansiedade); a Teologia dá as respostas (símbolos religiosos).


UNIDADE 3: TEOLOGIAS POLÍTICAS E DA ESPERANÇA

Nos anos 60 e 70, a teologia saiu da universidade e foi para a favela e para os protestos.

3.1. Teologia da Esperança (Jürgen Moltmann)

  • Contra o foco no "agora" dos existencialistas, Moltmann focou no Futuro.

  • Deus é o Deus da Promessa. A Igreja é a flecha apontada para o Reino que vem. O "Deus Crucificado" sofre com os que sofrem hoje.

3.2. Teologia da Libertação (América Latina)

  • Líderes: Gustavo Gutiérrez (Peru), Leonardo Boff (Brasil).

  • Contexto: Ditaduras militares e pobreza extrema.

  • Foco: A salvação não é só ir para o céu, mas libertar o homem da opressão política e econômica (pecado estrutural).

  • Método: Ver (a pobreza) -> Julgar (com a Bíblia/Marxismo) -> Agir (Práxis libertadora).

  • Opção Preferencial pelos Pobres: Deus está do lado do oprimido.

3.3. Teologia Negra e Feminista

  • Negra (James Cone): Jesus se identifica com os negros oprimidos nos EUA. A cruz é o linchamento de Deus.

  • Feminista: Critica o patriarcado na igreja e busca resgatar a dignidade da mulher na teologia, questionando a linguagem exclusivamente masculina para Deus.


UNIDADE 4: O MOVIMENTO EVANGÉLICO (Evangelicalismo)

Enquanto os liberais dominavam a academia, os conservadores se reorganizaram.

4.1. Fundamentalismo vs. Neo-Evangelicalismo

  • Fundamentalistas (Início do Séc. XX): Reação defensiva. Separaram-se da cultura e da ciência ("Não vá ao cinema", "Ciência é do diabo").

  • Neo-Evangelicais (Pós-1940): Líderes como Billy Graham e John Stott (Pacto de Lausanne).

    • Mantiveram a ortodoxia bíblica, mas decidiram dialogar com a cultura e ter responsabilidade social, sem perder o foco na evangelização.

4.2. Teísmo Aberto (Open Theism)

Uma corrente controversa do final do século XX.

  • Tese: Deus decidiu não saber o futuro completo das decisões livres humanas. O futuro está "em aberto". Deus corre riscos junto com a criação.

  • Crítica: Questiona a onisciência clássica de Deus.

4.3. Teologia Pós-Moderna (Igreja Emergente)

  • Foca na Narrativa em vez da Doutrina Sistemática.

  • Valoriza a dúvida, a arte, a comunidade e a inclusão. Rejeita as certezas absolutas do modernismo.


EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

1. Por que Karl Barth rompeu com o Liberalismo Teológico e qual foi sua principal ênfase na Neo-Ortodoxia?



2. Explique o conceito de "Desmitologização" de Rudolf Bultmann.



3. Qual é a "Opção Preferencial" da Teologia da Libertação e como ela define o pecado?



4. Diferencie o "Fundamentalismo" clássico do "Neo-Evangelicalismo" representado por Billy Graham e John Stott.



BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

  1. GRENZ, Stanley; OLSON, Roger. A Teologia do Século 20. Editora Cultura Cristã. (O melhor manual introdutório).

  2. BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica.

  3. STOTT, John. O Discípulo Radical. (Exemplo de evangelicalismo equilibrado).

  4. GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação.

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